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Robôs aprendem novas tarefas em minutos: nova IA pode transformar fábricas e BMW vai avaliar tecnologia

Por Maurício Gomes

Durante décadas, a automação industrial seguiu uma lógica relativamente rígida: cada robô era programado para repetir uma função específica milhares de vezes. Alterar o produto ou a linha de montagem podia exigir reprogramação, troca de equipamentos e semanas de trabalho.

A startup americana Industrial Next afirma ter desenvolvido uma alternativa baseada em inteligência artificial capaz de reduzir esse processo para poucos minutos. A empresa apresentou suas novas estações robóticas no TechCrunch Disrupt 2026 e anunciou uma parceria com o BMW Group Technology Office, que avaliará a tecnologia para aplicações de manufatura.

Robôs que aprendem em vez de apenas repetir

As estações desenvolvidas pela Industrial Next combinam visão computacional, informações sobre a tarefa e controle de movimentos por meio de modelos próprios de IA.

Em vez de depender exclusivamente de comandos previamente programados, os robôs são treinados usando demonstrações e ambientes virtuais de alta precisão. Segundo a empresa, uma mesma estação pode ser reorganizada e preparada para uma nova função em minutos, enquanto processos tradicionais podem levar semanas ou meses.

Essa flexibilidade pode ser especialmente importante em fábricas que produzem diferentes versões de um produto ou precisam modificar suas linhas com frequência.

Simulação é uma das principais armas

Treinar robôs físicos é mais complicado do que treinar grandes modelos de linguagem. Enquanto sistemas de IA podem aprender com enormes volumes de textos e imagens disponíveis na internet, existe muito menos informação sobre como executar movimentos industriais extremamente precisos.

A solução encontrada pela Industrial Next foi apostar em simulações detalhadas da física do mundo real.

Os robôs podem praticar virtualmente como agarrar uma peça, manipular componentes delicados ou realizar uma montagem antes de executar a operação na fábrica. A empresa afirma que essa técnica permite ensinar tarefas de grande precisão sem depender de enormes quantidades de dados físicos.

Tecnologia já estaria sendo usada na fabricação de smartphones

A Industrial Next afirma que algumas de suas estações já trabalham na fabricação de um dos smartphones mais populares do mundo, embora não tenha revelado qual empresa utiliza os equipamentos.

Entre as tarefas estão manipular cabos flexíveis e encaixar pequenos conectores — operações que fabricantes tentam automatizar há anos por causa da delicadeza necessária.

A empresa também afirma ter desenvolvido sistemas capazes de retirar filmes protetores de componentes de câmeras e botões em velocidade equivalente ou superior à humana. Essas métricas, no entanto, são declarações da própria startup e ainda precisam ser avaliadas em escala por fabricantes independentes.

BMW entra na avaliação

O acordo anunciado com o BMW Group Technology Office aumenta a relevância do projeto.

A montadora vai avaliar a tecnologia de manipulação robótica baseada em IA da Industrial Next para possíveis aplicações industriais.

A aproximação também combina com uma estratégia mais ampla da BMW. A fabricante vem investindo no conceito de Physical AI, que leva modelos de inteligência artificial para máquinas capazes de atuar no mundo físico. Em 2026, a empresa ampliou testes com robótica humanoide e desenvolveu projetos envolvendo simulação, planejamento de movimentos e treinamento de robôs para fábricas.

Em Leipzig, na Alemanha, a BMW já iniciou um projeto com robôs humanoides para atividades ligadas à montagem de baterias e produção de componentes.

A fábrica pode deixar de ser tão rígida

O impacto potencial vai além de substituir uma máquina por outra.

Grande parte da automação atual funciona bem quando milhões de produtos praticamente idênticos precisam ser fabricados. O problema aparece quando modelos mudam, componentes são atualizados ou uma fábrica precisa produzir diferentes produtos na mesma estrutura.

Se robôs realmente conseguirem aprender novas tarefas rapidamente, uma linha de montagem poderá se tornar muito mais adaptável.

Em vez de construir uma estação específica para cada operação, fabricantes poderiam reorganizar os mesmos sistemas robóticos conforme a demanda.

O impacto sobre o trabalho também muda

Essa evolução abre novamente a discussão sobre emprego e automação industrial.

Os primeiros robôs substituíram principalmente atividades extremamente repetitivas. Sistemas equipados com IA podem avançar sobre tarefas que exigem adaptação visual, manipulação delicada e tomada de pequenas decisões.

Isso não significa que fábricas sem trabalhadores humanos estejam próximas. Existem questões de segurança, confiabilidade, custo e manutenção que precisam ser resolvidas antes que essas tecnologias sejam usadas em grande escala.

A própria Industrial Next apresenta como objetivo de longo prazo chegar a fábricas capazes de produzir veículos praticamente de ponta a ponta com alto grau de automação. Por enquanto, trata-se de uma ambição da empresa, e não de uma capacidade industrial já demonstrada.

A próxima revolução industrial pode ser a flexibilidade

A grande transformação talvez não venha simplesmente de colocar mais robôs nas fábricas.

O avanço mais importante pode ocorrer quando uma máquina deixa de precisar de semanas de programação para cada nova função.

Com inteligência artificial, simulação e robótica começando a convergir, a indústria se aproxima de máquinas capazes de receber uma tarefa, aprender como executá-la e rapidamente entrar em operação.

Se essa promessa funcionar em escala, a fábrica do futuro poderá ser muito menos rígida do que conhecemos hoje.

Maurício Gomes — Tecnologia, inovação e inteligência artificial

Fontes consultadas

TechCrunch — reportagem sobre a Industrial Next e suas estações robóticas com IA; BMW Group — informações sobre projetos de robótica humanoide e Physical AI na produção.