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IA vira desafio no segundo turno: deepfakes avançam nas redes e colocam eleições de 2026 sob nova pressão

Por Maurício Gomes

A inteligência artificial entrou definitivamente no centro do debate eleitoral brasileiro. Depois do primeiro turno das Eleições 2026, realizado em 4 de outubro, o país chega à segunda fase da disputa com um desafio que vai além das urnas: identificar quando um vídeo, uma imagem ou uma voz atribuída a uma figura pública foi criada ou alterada por IA.

O tema ganhou força durante a campanha. Levantamento do projeto VigIA, divulgado pela Agência Brasil em 2 de outubro, identificou 554 vídeos e imagens classificados como deepfakes entre os conteúdos analisados no período eleitoral. Ao todo, 920 publicações tiveram uso de IA confirmado, mas apenas 371 estavam devidamente sinalizadas como material produzido ou alterado artificialmente.

IA deixou de ser exceção na comunicação política

Os dados indicam que conteúdos sintéticos já fazem parte da rotina das redes sociais durante as eleições. A inteligência artificial pode ser usada para criar vídeos, alterar imagens, imitar vozes e produzir peças de campanha em grande escala.

O problema surge quando esse conteúdo é apresentado sem identificação ou tenta fazer uma pessoa parecer dizer ou fazer algo que nunca aconteceu. É nesse ponto que entram as regras específicas para deepfakes e outras formas de conteúdo sintético.

TSE definiu critérios específicos para deepfakes

Em setembro, o Tribunal Superior Eleitoral fixou critérios para caracterizar deepfakes nas Eleições 2026. O tribunal passou a diferenciar o simples uso de ferramentas de inteligência artificial de conteúdos capazes de criar uma representação falsa e verossímil de uma pessoa real.

As regras eleitorais também exigem identificação do uso de IA em determinadas peças de propaganda. Para o segundo turno, o calendário aprovado pelo TSE estabelece ainda uma janela específica: a partir de três dias antes da votação e até 24 horas após o término do pleito, fica vedada a publicação e a republicação de novos conteúdos sintéticos produzidos ou alterados por IA que utilizem imagem, voz ou manifestação de candidata, candidato ou pessoa pública.

Primeiro turno terminou sem registro de interferência relevante

Apesar da circulação de conteúdos sintéticos durante a campanha, o presidente do TSE afirmou no dia da votação que não havia indicativo concreto de interferência internacional no processo eleitoral e que os temores de deepfakes com repercussão significativa não se confirmaram naquele momento.

Isso não significa que o problema tenha desaparecido. A escala de produção de conteúdo com IA continua alta, e a segunda fase da campanha tende a concentrar ainda mais atenção sobre materiais publicados nas redes.

O desafio agora é distinguir o real do fabricado

Para o eleitor, a dificuldade aumenta porque ferramentas generativas conseguem produzir imagens, vozes e vídeos cada vez mais convincentes. Um conteúdo falso pode circular rapidamente antes que agências de checagem, plataformas ou autoridades consigam analisá-lo.

Por isso, a verificação da origem de vídeos, a consulta a canais oficiais, a observação de sinais de manipulação e a cautela diante de conteúdos muito impactantes se tornam parte da própria experiência eleitoral.

A eleição brasileira entra em uma nova fase tecnológica

A principal mudança de 2026 é que a inteligência artificial deixou de ser apenas um recurso de produção de campanha e passou a ser também um problema de autenticidade da informação.

O segundo turno será, nesse sentido, um novo teste para campanhas, plataformas digitais, Justiça Eleitoral e eleitores. A questão não é apenas quem usa IA, mas se o público consegue perceber quando ela está sendo usada e se conteúdos artificiais são capazes de alterar a percepção sobre fatos reais.

A tecnologia pode ampliar produtividade e criatividade na comunicação política, mas também aumenta a responsabilidade sobre transparência, rastreabilidade e verificação. Nas eleições de 2026, essa fronteira já deixou de ser futurista: ela está acontecendo agora.

Maurício Gomes — Tecnologia, inovação e inteligência artificial

Fontes consultadas

Tribunal Superior Eleitoral — regras e calendário das Eleições 2026, critérios para deepfakes e balanço do primeiro turno; Agência Brasil — levantamento do projeto VigIA sobre uso de inteligência artificial e deepfakes durante a campanha.