Por Maurício Gomes
A inteligência artificial está começando a provocar uma transformação inesperada fora dos laboratórios e das empresas de tecnologia. Ferramentas capazes de interpretar documentos, redigir reclamações e preparar solicitações estão tornando muito mais fácil para cidadãos interagirem com governos — e alguns serviços públicos já começam a sentir o impacto desse aumento de demanda.
Pesquisadores estão chamando o fenômeno de “agentic flooding”, ou inundação agêntica. A expressão descreve situações em que o uso de inteligência artificial reduz drasticamente o esforço necessário para produzir pedidos, reclamações, recursos e outros documentos, elevando o volume recebido por instituições públicas.
Estudo encontrou 84 casos potenciais em 11 jurisdições
Um estudo dos pesquisadores Chris Schmitz, Lewis Hammond e Alan Chan reuniu 84 casos potenciais em 11 jurisdições. O trabalho argumenta que o fenômeno provavelmente já ocorre de maneira ampla, principalmente porque grandes modelos de linguagem tornaram a produção de textos complexos muito mais barata e acessível.
Os próprios autores, porém, adotam cautela: os dados mostram fortes mudanças de volume, mas não permitem atribuir automaticamente todo o crescimento à inteligência artificial. Essa distinção é importante para evitar transformar correlação em certeza.
Reclamações cresceram fortemente nos Estados Unidos e no Reino Unido
Um dos exemplos destacados pela apuração do TechCrunch está no Reino Unido. As reclamações encaminhadas ao ombudsman de habitação passaram de aproximadamente 2.600 em 2022 para pouco mais de 7 mil no último ano analisado.
Nos Estados Unidos, o Consumer Financial Protection Bureau, órgão responsável por receber reclamações relacionadas ao setor financeiro, registrou crescimento de aproximadamente cinco vezes no volume de manifestações durante período semelhante.
O levantamento também encontrou movimentos comparáveis em outros tipos de serviços, incluindo petições parlamentares na Alemanha e petições judiciais no Brasil.
O Brasil está dentro dessa transformação
A presença de casos brasileiros torna a discussão particularmente relevante. O Judiciário, órgãos de defesa do consumidor, ouvidorias e diferentes serviços públicos dependem de sistemas criados em uma época na qual preparar uma manifestação formal exigia tempo, conhecimento e trabalho humano.
Agora, uma pessoa pode fotografar uma carta, apresentar o documento a uma ferramenta de IA e receber em poucos segundos uma explicação, uma resposta estruturada ou até um rascunho de recurso.
Isso pode ampliar o acesso de cidadãos que anteriormente desistiriam diante da burocracia. Ao mesmo tempo, cria um problema de escala: instituições podem precisar processar muito mais solicitações sem que seus recursos humanos e tecnológicos cresçam na mesma proporção.
Nem tudo é spam
Esse é um dos pontos mais importantes da pesquisa. O aumento de solicitações não deve ser tratado automaticamente como uma invasão de robôs ou uma onda de documentos sem valor.
Segundo Schmitz, muitos usuários estão utilizando IA para exercer direitos ou apresentar pedidos legítimos que talvez nunca fossem enviados devido à chamada carga administrativa — o esforço necessário para entender regras, reunir informações e preencher procedimentos burocráticos.
A tecnologia, portanto, pode estar revelando uma demanda que sempre existiu, mas permanecia reprimida pela dificuldade dos próprios processos.
O desafio: cinco vezes mais pedidos com a mesma estrutura
Para governos e empresas, o problema aparece quando o custo de produzir uma solicitação cai quase a zero, mas o custo de analisá-la continua alto.
Um agente de IA pode ajudar alguém a preparar textos, organizar argumentos e preencher documentos rapidamente. Do outro lado, servidores, analistas ou equipes jurídicas ainda precisam verificar fatos, direitos, documentos e possíveis abusos.
Essa assimetria pode criar filas maiores e pressionar estruturas que não foram projetadas para receber solicitações nessa escala.
Criar barreiras pode prejudicar quem realmente precisa
Uma reação possível seria aumentar taxas, exigir verificações adicionais ou introduzir outras etapas para dificultar submissões automatizadas. O estudo alerta, entretanto, para um efeito colateral: medidas que reduzem o volume também podem dificultar o acesso de cidadãos legítimos aos serviços.
O desafio será desenvolver mecanismos capazes de identificar abuso e automação maliciosa sem transformar a burocracia em uma barreira ainda maior.
Governos terão de aprender a trabalhar com agentes de IA
O crescimento dos agentes inteligentes sugere que governos talvez precisem fazer mais do que simplesmente tentar bloquear solicitações automatizadas.
Uma alternativa é redesenhar serviços para um cenário no qual cidadãos utilizem assistentes digitais de maneira rotineira. Isso pode envolver APIs públicas, validação estruturada de documentos, autenticação mais robusta, sistemas automáticos de triagem e inteligência artificial também do lado das instituições.
Em outras palavras, se cidadãos começarem a utilizar agentes para lidar com a burocracia, governos provavelmente precisarão utilizar tecnologia semelhante para conseguir responder.
A IA está mudando até a relação entre cidadão e Estado
A discussão sobre inteligência artificial normalmente se concentra em empregos, produtividade, criação de conteúdo ou grandes modelos. O chamado “agentic flooding” mostra que existe outra transformação acontecendo silenciosamente.
A tecnologia está reduzindo o custo de reivindicar direitos, contestar decisões e navegar por sistemas burocráticos. Isso pode democratizar o acesso aos serviços públicos, mas também pode sobrecarregar instituições construídas para uma realidade muito diferente.
A pergunta deixa de ser apenas quantas tarefas a IA conseguirá automatizar. Passa a ser também: o que acontece quando milhões de pessoas passam a ter um agente digital capaz de lidar com a burocracia por elas, 24 horas por dia?
Apuração: estudo “Characterizing Agentic Flooding of Government Services”, de Chris Schmitz, Lewis Hammond e Alan Chan, e reportagem publicada pelo TechCrunch em 10 de setembro de 2026.