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Entre o entusiasmo e o cansaço: como a IA está transformando — e inquietando — os programadores

Programador com expressão de desânimo e preocupação diante de monitores com código e inteligência artificial

A inteligência artificial já escreve funções, encontra erros e ajuda a construir sistemas inteiros. Entretanto, à medida que seu uso cresce, programadores relatam menos confiança, mais retrabalho e uma inquietação profunda: qual será o papel humano quando a máquina também souber programar?

Vídeo relacionado ao debate sobre a transformação da programação pela inteligência artificial.

Uso aumenta, mas o entusiasmo diminui

A inteligência artificial deixou de ser uma promessa distante para se tornar presença diária no trabalho de desenvolvimento. Ela produz código, sugere correções, cria testes, explica sistemas antigos e acelera tarefas que antes exigiam horas de pesquisa.

A pesquisa de 2025 do Stack Overflow mostra que 84% dos participantes utilizavam ou planejavam utilizar IA no desenvolvimento, contra 76% no ano anterior. Entre programadores profissionais, 51% afirmaram usar essas ferramentas diariamente.

O crescimento da adoção, porém, veio acompanhado de uma queda no entusiasmo. A visão favorável sobre as ferramentas, superior a 70% em 2023 e 2024, recuou para aproximadamente 60% em 2025. Além disso, 46% disseram desconfiar da precisão das respostas, enquanto apenas 33% demonstraram confiança.

Os dados revelam um paradoxo: os profissionais usam cada vez mais a IA, mas confiam cada vez menos nela. A maior frustração, citada por 66% dos desenvolvedores, são soluções que parecem corretas, mas apresentam algum erro. Outros 45% afirmam que depurar código gerado pela IA pode consumir mais tempo.

Da transformação à possível desmotivação

A desmotivação não deve ser tratada apenas como resistência à tecnologia. Para muitos profissionais, ela nasce da sensação de que anos de estudo podem ser reduzidos a comandos escritos em uma caixa de texto. Também surge do retrabalho necessário para verificar respostas, do medo de perder espaço no mercado e da pressão para produzir cada vez mais rápido.

Entretanto, os levantamentos disponíveis não comprovam que a IA esteja causando, sozinha, uma crise psicológica entre programadores. O que os números registram são sinais mensuráveis de frustração, desconfiança, aumento da cobrança e perda da sensação de domínio sobre o próprio trabalho.

Quando o profissional deixa de construir uma solução e passa somente a fiscalizar o que a máquina produziu, o trabalho pode perder parte do caráter criativo que motivou muitas pessoas a entrar na programação. A velocidade cresce, mas o sentimento de autoria pode diminuir.

A ilusão de produzir mais

Um experimento controlado da organização METR acompanhou 16 desenvolvedores experientes em 246 tarefas reais de grandes projetos de código aberto. Antes do estudo, os participantes acreditavam que a IA os deixaria cerca de 24% mais rápidos.

O resultado observado foi o contrário: com as ferramentas disponíveis no início de 2025, eles demoraram, em média, 19% mais tempo. Parte da velocidade obtida na geração foi perdida na leitura, correção e adaptação das respostas.

Em uma atualização publicada em 2026, a METR informou que ferramentas mais recentes provavelmente já aceleram algumas tarefas. Contudo, os novos resultados sofreram efeitos de seleção e não permitiram determinar com segurança o tamanho do ganho.

O levantamento encontrou ainda outro comportamento: alguns profissionais não quiseram participar quando existia a possibilidade de trabalhar sem IA. Entre 30% e 50% disseram evitar determinadas tarefas no estudo porque poderiam ser sorteados para executá-las sem assistência artificial. A ferramenta deixou de ser apenas uma conveniência e passou a fazer parte da forma como esses profissionais organizam o próprio raciocínio.

O risco de deixar de pensar

O maior risco não está somente em receber uma resposta errada. Está em aceitar uma solução sem entender por que ela funciona, quais decisões foram tomadas e quais consequências podem aparecer depois.

Programar nunca foi apenas digitar comandos. O código é a parte visível de um processo que começa com a compreensão de uma necessidade humana. Antes de escrever uma linha, é preciso analisar usuários, regras, segurança, acessibilidade, desempenho, custos e limitações institucionais.

A IA consegue sugerir caminhos, mas ainda cabe ao profissional decidir qual problema merece ser resolvido, quais dados podem ser utilizados, qual arquitetura é adequada, como proteger informações e quem responderá quando uma decisão automatizada provocar prejuízo.

Por essa razão, o chamado “fator pensar” não perde importância. Ele se transforma no principal diferencial do profissional.

A IA amplifica aquilo que já existe

O relatório DORA 2025, produzido pelo Google Cloud com respostas de quase 5 mil profissionais de tecnologia, encontrou adoção de IA próxima de 90%. Mais de 80% acreditavam que ela havia aumentado sua produtividade.

A principal conclusão foi que a IA funciona como um amplificador. Equipes organizadas, com testes automatizados, documentação, processos claros e retorno rápido, tendem a ganhar eficiência. Em ambientes frágeis, a tecnologia também acelera erros, instabilidade e desorganização.

Produzir mais código não significa necessariamente produzir um sistema melhor. Sem revisão humana, testes e responsabilidade técnica, a aparente produtividade pode apenas transferir problemas para as etapas seguintes.

Quais profissionais serão mais valorizados?

A função do programador tende a se deslocar da escrita manual de cada linha para a direção, integração, validação e manutenção de sistemas construídos com assistência artificial. Arquitetos de software, especialistas em segurança e privacidade, profissionais de qualidade, engenheiros de IA, especialistas em experiência do usuário, acessibilidade, integração de plataformas e manutenção de sistemas legados deverão ganhar relevância.

Também deverá crescer a procura por quem sabe coordenar agentes de IA, fornecer contexto adequado, definir requisitos, controlar permissões e avaliar criticamente o resultado. Não basta pedir que a máquina gere uma aplicação: será necessário verificar se ela atende a uma necessidade real e se pode operar com segurança.

O Fórum Econômico Mundial coloca especialistas em IA, big data, segurança de redes e desenvolvimento de software entre as ocupações tecnológicas de crescimento mais rápido até 2030. O mesmo relatório aponta o pensamento analítico como a competência central mais procurada pelos empregadores.

Nos Estados Unidos, o Bureau of Labor Statistics projeta crescimento de 10% no emprego conjunto de desenvolvedores, analistas de qualidade e testadores entre 2025 e 2035, ritmo superior à média das demais ocupações.

O futuro não pertence a quem apenas aperta um botão

A inteligência artificial não representa necessariamente o fim da programação. Ela aponta para o fim gradual de uma parte do trabalho baseada exclusivamente na produção manual e repetitiva de código.

O verdadeiro risco não é a máquina aprender a programar. É o ser humano deixar de aprender, questionar e compreender aquilo que entrega.

Os profissionais mais preparados para o futuro não serão apenas aqueles que escreverem mais linhas em menos tempo. Serão os que souberem formular os melhores problemas, desconfiar de respostas aparentemente perfeitas, validar resultados e utilizar a tecnologia sem entregar a ela sua capacidade de julgamento.

A inteligência artificial pode escrever o código. Mas propósito, responsabilidade, discernimento e pensamento crítico ainda precisam permanecer humanos.

Imagem gerada por inteligência artificial.